Bati no fundo. Posso dizer que o fiz - infelizmente. Não quero sair de casa, não quero ir ter com amigos, não quero ir trabalhar ou até mesmo ir à faculdade. Antes,fazia o esforço de o fazer, de conseguir sair da minha zona de conforto e ir.Hoje, já não consigo que essa força seja posta em prática tão facilmente.

23 anos e desde os 19 que sofro de ataques de ansiedade. Sei que, em miúda, também os tive mas, com a ajuda de psicólogas, consegui resolver as minhas questões. Quando me mudei para Lisboa, a minha vida deu uma reviravolta autêntica. Lembro-me que foi um ano complicado. Um acumular de situações, um curso onde eu não queria estar, a presença de pessoas tóxicas durante este período menos feliz da minha vida. Se eu estivesse a enumerar tudo isto, não saía daqui.

O meu primeiro ataque de pânico foi a sensação mais estranha que já senti até hoje: senti o corpo todo a tremer, tinha tonturas,palpitações, não me aguentava em pé e tinha a sensação de que ia morrer. Não tive falta de ar. Pensei, até, que tivesse sido uma quebra de tensão e fui-me deitar. Tentei descansar o mais possível mas, passado dois dias, lá estavam todos estes sintomas, novamente. Entretanto, estava a trabalhar e tive de ir para casa. Foi aí que percebi que necessitava de ajuda. Dirigi-me a um psiquiatra e foi-me diagnosticado que tinha ataques de pânico. Tomei 5 comprimidos por dia e fui ficando mais calma. Afastei-me de todas as relações tóxicas que tinha e foquei-me no que era importante para mim.

Parei de tomar os comprimidos por vontade própria, em 2014. A vida corria-me bem,tinha acabado de me mudar para um curso onde eu sempre quis estar - Jornalismo- e prosseguia os meus sonhos. Comecei a trabalhar, enchi-me de pessoas positivas à minha volta e tentei ser sempre o mais forte possível. Ser fraca não era uma coisa que fosse possível para mim - sabia que iria sempre existir uma saída, independentemente do que sentisse. Sentia-me cheia de energia, tinha o Mundo para conquistar até que, à um ano para cá, voltei a ser assombrada pela ansiedade. Novamente um acumular de situações do passado que se conjugavam como presente. Começou por ser pequena e, de um momento para o outro, já havia enchido o meu corpo da sobrecarga energética que produz. Não me conseguia concentrar, as insónias eram mais que muitas, o medo de errar, do futuro, de não conseguir cumprir os meus objectivos, de não dar o meu máximo em tudo.Tinha medo de mostrar que transbordava ansiedade. Poucas foram as pessoas a saberem que me sentia assim. Escondi este monstro que me assombrava. Mas, será que não o escondi? Ou não o aceitei? Sei que dei de caras com ele, de um dia para o outro e soube que havia chegado ao limite - já estava a entrar num esgotamento. Dei por mim a não querer sair da cama. A querer permanecer no escuro do quarto, com os meus dois gatos ao meu lado. A chorar, baba e ranho, e não saber a razão pela qual o estava a fazer - já não era tristeza, era apatia. Levantava-me, muitas vezes, enjoada. Com o estômago às voltas. Fui parar ao hospital algumas vezes e eu nem sabia o porquê. Tentava organizar as ideias e passava horas a procurar uma justificação plausível para o que me estava a acontecer e não o conseguia fazer. A irritar-me, sem razão para o fazer. A ter discussões porque uma migalha estava no chão. As alterações de humor eram mais que muitas, tanto estava extremamente feliz como, de um momento para o outro, ficava triste. Os pensamentos, cada vez que me vinham à cabeça, acabavam por ter sempre uma vertente negativa. Tinha medo de sair de casa, de poder morrer - que é a coisa mais certa que temos neste vida - de perder, novamente, alguém de quem gosto muito. Tinha medo de ter medo. Isto tudo, apenas tinha um significado: o meu corpo estava a pedir ajuda e eu só o tinha de ouvir.

Todos me diziam "vai à luta", "tu és forte". O meu cérebro não canalizava isto, nem sequer acompanhava estas palavras. Só me dizia que eu estava a ficar cada vez mais fraca. E eu, que sempre pensei ser forte, estava a ceder. A verdade é que até as pedras, as mais duras e fortes, muitas vezes também se partem. E eu precisava de me consertar. Os cacos invisíveis de um passado que não passou continuavam lá e os fantasmas também. Foi quando me decidi que precisava de ajuda.


Um tabú inicial

A ansiedade não é uma doença mental, como muitos a designam. Rouba-nos a alegria e, depressa se transforma em depressão. Para mim, no até hoje foi uma vergonha. Era como se fosse uma sombra de mim que eu não queria mostrar a ninguém. E tirem-se todas as teimas, não se é maluco por se visitar um psicólogo. Os tabús da sociedade portuguesa fazem com que certas disposições presentes no nosso foro neurológico não tenham qualquer importância ou, se tiverem, sejam interpretada como coisa "que passam, que a vida nos vai ensinando a resolver". A verdade é que, cada vez mais, temos uma sociedade que trabalha para sobreviver, que não se rodeia daquilo que lhe é mais importante. Para darmos mais de nós, é preciso darmos mais a nós; Para conseguirmos cuidar dos outros, temos de cuidar de nós. Não é egoísta, de todo - é amor-próprio. Aquilo que sempre me faltou.

A grande pergunta chave, depois de tudo isto, é: e agora? Como é que resolvo esta situação? E é aí que temos de nos focar em procurar ajuda. Percebermos que temos realmente um problema e saber encará-lo, da melhor maneira. Procurar profissionais focados nestas áreas e, principalmente, receber apoio de quem mais gosta de nós. Psiquiatras e psicólogos estão sempre disponíveis para nos receber. E eu, só tenho a agradecer a quem, neste momento, está a fazer este trabalho tão importante.

Se conhecem alguém com estes sintomas, não hesitem em lhes dar apoio e em fazê-los perceber que é necessário ajuda.


A máscara de felicidade exibia-se, sempre, para quem me desejava um "bom dia" na rua. Sorria e a minha boca, em conjunto com o seu movimento, desejava um excelente dia. Não digo a ninguém que sofro, todos os dias, com o meu interior. Que não me compreendo. Que não entendo a maior parte das coisas que esta vida me trouxe. Hoje, estou a enfrentar este monstro. Com calma, com serenidade e sem medo de enfrentar o que me deitou abaixo. Sem medo de vos contar que - e parecendo cliché mas não o é - mesmo com o maior sorriso na cara, o nosso coração também sofre. Não se vê, não se lê; só se sabe que se sente. E, só sabe quem sente.


Beijos de coração,

C. 

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Se há coisa de que adquiri como certo foi a tua existência. Tão certo como a morte, a memória não nos dá tréguas. Tentamos, escondemos e a àgua oxigenada do futuro não nos sara as invisíveis feridas que nos preenchem. Dói e dilacera o coração - não nos deixa avançar. Evoluir para algo melhor. O pensamento do que fomos, ficará sempre gravado em alguma coisa e, quando o passado nos pesa, é difícil libertarmos essa grande mala que tanto nos pesa nos ombros.

O tempo, cura tudo, disseram-me. Não me admiro nem desminto - assim espero que o tempo me cure a mim. Mas é nestes dias, em que a vulnerabilidade é maior que qualquer coisa, que a força ganha outro gosto. Não é o passado que nos custa - são as memórias. Ou o medo de que, essas mesmas, se voltem a repetir num futuro brilhante, que em nada se compara a uma recordação miserável.

Passa. Devagar. Mas passa. E é assim que a vida nos descobre - num emaranho de emoções. É assim que nos descobrimos - num mar de desilusões e ilusões. E é, nestes momentos, em que nos agarramos ao pensamentos. Somos capazes. Somos melhores e sabemos o que valemos. Os gestos miseráveis ficaram esquecidos, lá atrás. A luz, somos nós que a transportamos. Os valores, somos nós que os incutimos. O futuro, esse, é só nosso. E é esse mesmo que temos de começar a construir.

Hoje, desprendo-me de Ti. De todas as sequências tristes que me trouxeste.Das pessoas que levaste, para longe. E tu, sabes bem a que me refiro. Levaste a minha melhor amiga, sem uma única palavra. Sem um "adeus". Levaste os meus valores, as minhas qualidades. Transformaste-me num ser sem auto-estima.. Arrastaste-me para um lupo de emoções onde aprendi e desaprendi a gostar. É isto que tens para me relembrar? Não o quero. Podes ir e levar, contigo, tudo o que me trouxeste de mal. É egoísta da minha parte que só leves o miserável - que assim o seja. Hoje, não o quero na minha vida. Hoje, sou mais Eu.

A lição que me trouxeste? Que somos aquilo que construímos. Aquilo a que nos submetemos. Não somos o nosso passado - tal como dita o cliché - somos antes o nosso futuro.

E a ti, só te devo um adeus.

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Se há coisa que preservo na minha vida são os meus animais. O meus gordinhos, pequeninos. Tudo acabado em "inho". Chegar a casa e tê-los por perto. Ouvir um ronron sempre que lhes faço uma festa ou quando agarro no Oliver e o aperto. O Oliver foi adoptado. Era pequeno, tinha uns 3 meses quando veio parar a minha casa. Ia ser abandonado caso ninguém quisesse ficar com ele e eu "ofereci", a mim própria, a minha prenda de aniversário. Hoje, é o maior preguiçoso que vagueia por casa. Come e dorme. De olhos azuis, faz as delícias do meu coração. Eu já tinha uma gata - a Mel.. De pêlo dourado, foi o meu irmão que a encontrou, dentro de uma caixa, numa fonte que temos perto de casa . Tinha sido abandonada e acabara de abrir os olhos. Foram serões a tentar adormecê-la e a dar-lhe biberons. Hoje, é uma gata independente - não se compara ao Oliver. Vai à rua e só quer as tais festinhas quando lhe apetece. Eles, preenchem-me. Todos os dias, a toda a hora e, só por isso, mereciam ser uma parte de mim, também. 

Isto não é um blog - é um depósito de pensamentos, partilhas, convosco.

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