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Do dia 29 de Agosto até o dia 4 de Novembro a família saiu de férias e eu fui junto na mala! Aqui na Bavária existe esse feriado bizarro que chama Férias de Outono (nunca ouvi falar disso, mas ok), então minha host family (família hospedeira, em Português, mas soa super estranho, né? Parece que eu sou um parasita. Talvez eu seja. D:) decidiu ir pra França, mais exatamente pra Colmar. Não conhecia a cidade, então nem me empolguei, só sabia que ia ficar 4 horas num carro com duas crianças e um bebê e passar o Halloween e meu aniversário ilhada. Não parecia muito promissor.

Enfim, saímos daqui por volta das 11 da manhã, preparei meu audio book (aliás, pessoal com conta no Amazon, baixem o Audible, é um aplicativo do site e quem se cadastra ganha crédito pra ouvir um livro de graça! Eu já fiz mil contas falsianes. D:) com Matadouro 5, do Kurt Vonnegurt ("so it goes") e lá fomos nós. A Marie (o bebê) estava entre eu e a Anja (se lê Ânia, que nem o nome da Anastácia antes de ser ryca) e na frente foram o Felix (de 12 anos) e a Silke (a "mãe hospedeira" - tô rindo aqui!).

Surpreendentemente a Marie dormiu a maior parte do caminho - que foi longo, porque pegamos uma fila imensa - mas em compensação fez um rio de xixi que nem a fralda segurou, passou pra blusa, pra meia calça, pra cadeirinha... Todo mundo quis morrê! D: Mas isso resolvido, ainda tínhamos muito chão pela frente.

Finalmente chegamos perto das 9 da noite, pensa no drama e todo mundo exausto. Cada um tomou seu banho e foi pra cama. O lugar que ficamos era bem próximo do centro de Colmar, mas até aí eu nem tava impressionada porque era de noite e não dava de ver muita coisa.

No dia seguinte saímos para explorar a cidade. E ela é um mimo! Cheia de casinhas coloridas e ruas charmosas, parecia que fomos transportados pra um outro tempo!

Alguns dias depois, quando fizemos um tour de trenzinho (trenzinho da alegria pra velho), descobri que a cidade não foi atingida durante a Segunda Guerra e portanto estava do jeitinho que sempre foi! Ah, também descobri que as pessoas da cidade correram com os judeus de lá porque eles estavam "espalhando doenças por lavar demais as mãos". Bom, não se pode ter tudo nessa vida.

Também passeamos por um parque com um carrossel de 1900! Não é todo dia que se pode dar uma volta num carrossel de 116 anos! Fiquei encantada - e tonta!

Também visitamos o Musée du Jouet (Museu dos Jogos), que fora ter um tabuleiro do Jumanji, foi o lugar mais macabro que eu visitei durante aquela semana lá. D: Tirei uma foto pra vocês poderem imaginar o que tinha por lá.

Essa parte da França pertencia à Alemanha antes da guerra acabar, mas hoje em dia são pouquíssimos os resquícios de que ali já foi solo Alemão. Tudo é em Francês, os costumes também, mas eu consegui encontrar um pub com o nome de Schlüssberg. :D

Nosso último dia foi meu aniversário e foi um dia bem bom. A volta pra casa também foi tranquila. Consegui terminar meu livro - bem interessante, por sinal, indéco! E foi um lugar bem diferente pra visitar, muito provavelmente não programaria uma viagem pra lá por conta própria, portanto acredito que tenha sido uma oportunidade valiosa pra conhecer uma parte da França tão original. Alias, tem vídeo de lá também!

Se um dia alguém torcer o nariz pra Colmar, destorce porque vale muito a pena ver pessoalmente as casinhas coloridas e as ruas intocadas dessa cidadezinha!

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Um dia depois do ballet em Munique, fui pela primeira vez na vida numa sauna. Concordei de ir numa boa, até que algumas semanas antes, em Berlim, a caminho de um pub, o Julian me disse casualmente que a sauna era todo mundo pelado. Eu ri e ele continuou sério "achei melhor te contar, caso tu não soubesse". Fui o caminho todo meio traumatizada olhando pros meus sapatos enquanto a gente caminhava, ponderando se era humor alemão ou não. Não era.

Depois de ter uma taquicardia e um ataque de ansiedade, bora pro Google. "Sauna alemã" na pesquisa. Realmente, as saunas eram famosas por todo mundo estar usando a roupinha de quando veio ao mundo: nenhuma. Depois pesquisei "o que levar para uma sauna alemã". Vai que... Mas no fim era só o de sempre, roupão, toalha, biquini, chinelo...

Quando o dia chegou, eu ainda tava meio perturbada com a ideia de todo mundo vendo minha pepeca e minhash mamicash (como diria os manézinhos), mas fazer o quê? Eu concordei com a ideia, já tava lá, então vamos, né.

O lugar que a gente foi chama Erding Therme, também não tirei nenhuma foto por motivos óbvios, mas roubei essa no Google.

Só pra constar: essas pessoas aí tão todas com as tetas de fora. :)

Primeiramente, o lugar é enorme. Sério. É enorme. Tem piscina, tem banheira, tem massagem, tem um milhão de saunas de temperaturas e temas diferentes, tem área pra relaxar, tem área pra pelado, área pra biquini, tem restaurante, tem barzinho na água, fora da água, piscina de sal, de enxofre, de cálcio... cara, tem até parque aquático. D:

Eu acho engraçado como eu nunca sei o que esperar das coisas e me impressiono super fácil. Lucas, acho que esse dia foi o dia que eu mais fui Loirinho Abismado, acho que esse é o significado verdadeiro de abismado.

Na rua estavam 3 graus quando descemos do trem. Eu, o Julian e mais uns 10 amigos e amigas dele. Todo mundo encasacado, escondido atrás do cachecóis. Quando finalmente entramos no lugar, era um vestiário enorme, cada um com sua cabine e também com um número de armário pra guardar o excesso de roupa.

Eu estava super ansiosa, copiava tudo o que Julian fazia, porque não sabia quando era pra ficar pelada, já tiro a roupa aqui? Tiro lá? Fico de roupa? Que que tá com tecenu? Ele não tava nem aí, por ele já tava pelado desde o caixa.

Entramos pela parte onde só se podia tá de roupa, que era uma área com piscinas, restaurantes, várias crianças brincando e era também a área onde tinha o parque aquático. Passamos pela catraca e já dava de ver algumas pessoas bem a vontade tomando um solzinho (artificial) onde o sol não bate.

O Julian nem perdeu tempo, já ficou pelado e enrolou uma toalha na cintura. Eu tava lá de biquini feito gato na chuva, segurando minha toalha bem tímida. Eu não tava confortável no meu biquini também, ele me apertava em todos os lugares errados. Ele disse que eu podia ir no banheiro me trocar. "Me trocar" fiquei pensando, não tinha roupa pra "trocar", era só tirar. Enfim, entrei no banheiro, fechei a portinha e tirei o biquini - tchau, aperto! - me enrolei na minha toalha e lá fui eu.

Pra chegar na área das saunas, passamos por várias piscinas, inclusive na rua, com uns pelados dentro parecendo aqueles macacos da neve japoneses que tomam banho em pisicinas naturais de água quente.

Chegamos numa área onde existia uma placa: ei, daqui pra frente só pelado, viu? Tava em Alemão, mas até eu entendi a mensagem. Eu já tava pelada mesmo, mas de toalha, aliás, a maioria das pessoas não ficava andando peladona, usavam roupões de banho ou toalhas.

Decidimos entrar na piscina, agora sim, todo mundo pelado. Tava insegura por causa dos meus pneuzinhos, minha pochetinha e meus peitos de formato estranho. "Todo mundo vai olhar" eu tava pensando, ansiosa e curiosa. No fim das contas, tirei a toalha e os chinelos e pronto! Eu tava igual a todo mundo.

Me apressei pra entrar na água "pra me cobrir". Mas aos poucos fui ficando mais confortável e depois de um dia inteiro pelada, colocar roupas é que foi esquisito. Me senti mais desconfortável no meu biquíni esmagador do que sem ele.

As saunas também era todo mundo pelado, sentados em uma toalha e suando feito porcos. Mas não existe nada de sexual, as pessoas tratam a nudez super naturalmente. Eu me senti muito bem sem roupa. Por mais estranho que isso seja. Me desamarrei de muitas repreensões que existiam e, pra ser sincera, não vi nenhum corpo de modelo ou nenhum mister mundo andando por lá. As pessoas eram simplesmente... pessoas e todos os peitos eram de formato estranho. No fim das contas, eu era normal.

Fomos em uma sauna que alcançava 95 graus e me senti um frango no rolete. Minha pele ardia, não dava de respirar. Mas quando saímos de lá, o ar gelado era tão gostoso! Saía fumacinha das pessoas e respirar aqueles 3 graus Celcius da rua era revigorante.

Depois de tanta sauna, resolvemos ir pro parque aquático - de roupa dessa vez. O Erding tem o maior tobogã de túnel do mundo e também o "tobogã oficial da competição de descer tobogã" - o que quer que isso seja. Um dos tobogãs alcança a velocidade de 75km por hora e é proibido pra mulheres (aparentemente pode danificar o útero, mas sei lá, ninguém botou fé nisso e a justificativa do parque é que os biquinis são menores que os calções dos meninos), Não que eu quisesse descer num negócio desse, mas né.

No caminho pra casa eu tava exausta. O choque de temperaturas o dia inteiro, além de subir e descer as escadas dos tobogãs me gastaram a bateria. Na estação, enquanto todo mundo conversava energicamente em Alemão, nós dois conversamos sobre a teoria do Determinismo, em que tudo no universo segue leis necessárias que a gente não pode mudar, que faz o comportamento humano totalmente predeterminado pela natureza, e o sentimento de liberdade não passa de uma ilusão. Fiquei pensando em como era libertante tá peladinha no meio de todo mundo sem me sentir sensualizada. Seria isso predeterminado pela natureza, também?

Eu dormi no ombro do Julian o caminho de volta todo; Vestida com roupas e despida de rótulos.

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Na sexta retrasada, assisti hockey no gelo pela primeira vez! Ingolstadt tem o esporte como tradição e de acordo com a Silke (minha host mom, ou mãe emprestada enquanto eu to aqui trabalhando de au pair) era uma coisa que eu precisava ir ver.

Ouvi que Ingolstadt tem um time super bom que já ganhou uma pá de títulos, os Schwarzer Panther (ou Panteras Negras, em bom Português) e as cores são o azul e branco - igual o Leão da Ilha, ein, mãe! haha

O jogo aconteceu na Saturn Arena, que eu já tinha passado na frente várias vezes, mas achei que era um local pra show, sei lá, não imaginei que tinha jogo de hockey lá dentro. D:

A arena não era muito grande, mas estava bem cheia e Ingolstadt jogou contra Düsseldorf (nas cores McDonald's: vermelho e amarelo), que só tinha uns 10 torcedores na arquibancada. :(

Na abertura do jogo, um mascote vestido de pantera animou a torcida do Ingolstadt e os jogadores saíram por uma cabeça de pantera inflável com fumaça saindo pela boca!

Quando os integrantes do time foram apresentados, o narrador falava o primeiro nome e a torcida gritava o sobrenome. Existe uma interação bem bacana entre o narrador e a torcida durante o jogo todo. Toda vez que Ingolstadt marcava um gol (ou Tor, em Alemão!), o narrador falava o primeiro nome do jogador que marcou, a torcida completava com o sobrenome, depois o narrador perguntava o placar, dando o nome do time e a torcida falava o número de gols e no final ainda o narrador falava Danke! (Obrigada) e a torcida respondia Bitte! (de nada!) - tudo isso em gritos estilo Coração Valente. No fim até eu já tava na onda.

Hockey é um jogo violento e confuso. Tudo é rápido. O time inteiro tem uns 20 jogadores, mas só 6 estão em campo, não entendi o por que disso até o jogo começar. Os jogadores trocam o tempo inteiro pra evitar exaustão. E quando eu digo tempo inteiro, eu quero dizer a cada 2 ou 3 minutos. Fiquei super impressionada com isso. Nunca tinha percebido isso assistindo pela TV.

Dois tacos foram quebrados e dois paus foram fechados durante o jogo, fora as mil vezes que um jogador foi esmagado contra a proteção do campo (ou rinque, sei lá como chama onde eles jogam).

O placar final foi Ingolstadt 5 x 0 Düsseldorf. E um desses gols foi marcado quando o time do McDonald's achou que seria uma boa ideia tirar o goleiro pra ter um jogador a mais no "campo". O disco foi sozinhão deslizando o caminho todo até o gol. A torcida ficou louca no meio de gritos e gargalhadas.

Pra beber lá, tem que comprar um copinho, estilo festa da UFSC, mas quem não quiser levar pra casa, é só devolver que eles reembolsam o valor. :)

Foi uma experiência muito legal e bem diferente. A torcida também tem uma torcida organizada com tambores, bandeiras e músicas que todo mundo sabe cantar. Pegaram fogo do início ao fim! Foi bonito de ver.

Achei interessante como um esporte tão diferente do que a gente tá habituado no Brasil, compartilha da mesma paixão, da mesma garra e intensidade que a gente conhece no futebol. Mais uma memória pra minha caixinha de 2016! <3

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No dia do meu aniversário, ainda depois de todos os mil eventos que aconteceram, saí pra jantar com meu namorado e ele tinha surpresa mais surpreendente do mundo como presente: tickets pro ballet de Munique! Eu fiquei tão passada com a situação que só fiquei olhando pra ele com um sorrisinho pamonha na cara.

Quem me conhece sabe que eu sou apaixonada por ballet e que há mais ou menos três anos, encarei meus medos de infância e finalmente comecei a fazer aulas, que só parei quando vim pra Europa - mas ainda me pego dançando pela casa.

Apesar de já ter me apresentado uma vez e ter visto várias peças pelo YouTube, nunca tinha assistido ao ballet ao vivo, por isso infartei quando ele veio com os tickets. D:

A peça era Romeu e Julieta (ou Romeo und Julia, em Alemão!) e era só na semana seguinte. Eu fiquei atacada a semana inteira, super ansiosa e já avisei que provavelmente eu ia chorar.

Na sexta, trabalhei até às 17h e 17:30h tomamos rumo pra Munique, que fica a mais ou menos uma hora daqui de Ingolstadt. Tava um início de noite ranzinza e chuvoso, mas eu ainda tava atacada.

Munique é uma cidade bem dinâmica - apesar de nada abrir no domingo. Muitas pessoas, muitos carros caríssimos e todas as lojas que se pode imaginar. Existem também muitos prédios históricos e claro, muitos turistas asiáticos.

O Julian me falou brevemente que a peça era na Ópera de Munique. Até aí não dei muita bola, porque já tinha imaginado que seria num lugar assim, mas quando ele disse "virando a esquina aqui já vai dar de ver" eu não tava preparada pro que "já vai dar de ver".

Eu fiquei tão retardada, que não tirei foto nenhuma. Então roubei essa no Google. D:

O lugar era tão lindo e enorme! Realmente roubava a cena da praça e ofuscava todo o glamour dos porches estacionados à sua direita. Era uma pedrinha de ouro brilhando no meio da chuva.

Como se já não bastasse o lado de fora ser tão incrível, o lado de dentro chegava a ser surreal. A sala onde a peça aconteceria era confeitada de detalhes em todos os lugares que os olhos encontrassem. Eram lustres, estátuas, papéis de parede... O Julian me mostrou o lustre do salão (que não dava de ver de onde a gente tava sentado) e juro, era do tamanho do meu quarto. Era colossal!

Também roubei essa foto aí. D:

A peça era linda, também! A menina que interpretava a Julieta tinha só 19 anos e era só talento! Mas quem roubou a cena de verdade foram os 'amigos do Romeu'. Os meninos deram um show! Saltos incríveis e um milhão de piruetas!

O Julian dormiu no final! Hahaha Na melhor parte quando tava todo mundo morrendo e o maior climão rolando. Mas de acordo com ele "tava só descansando os olhos". Aham!

Na volta pra casa, nevou! Ele disse que era uma neve meia boca misturada com chuva, mas eu achei bonito mesmo assim. Menina de Floripa que foi pra São Joaquim e não viu neve, eu tinha que me impressionar, ué!

Foi uma noite incrível e um presente certamente inesquecível! Quem diria que minha primeira peça de ballet seria na Alemanha na Ópera de Munique, ein! Se isso é tá na pior... Porrãn!

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Hoje foi meu aniversário e por 23 anos meus pais estavam lá, minha irmã também. Meu primo em 22 deles. Sempre foi muito importante pra mim ter eles por perto como quem diz "ei, eu to ficando mais velha de novo, vocês ainda me amam?". Claro que sim. Com velas de números com glitter em um bolo ou velas para os mortos em um prato. Eles me amaram com tudo que podiam.

Desde que saí do Brasil em Janeiro, já vim pensando em como seria meu primeiro aniversário "sozinha". Seria confuso. Não ia ter convite, nem reboliço, nem bolo. Eu não me importei que ele vinha chegando, afinal, eu ia passar com pessoas que eu mal conhecia e que agora estariam tentando me enfiar na família deles. Eu não senti nada, nem esperei nada.

Ontem à tarde eu fiquei completamente sozinha pela primeira vez em 11 dias e eu me senti triste a tarde toda, sem saber bem o porquê. Isolada, meio sem propósito. Mesmo estando fisicamente só, eu me senti milhas e milhas longe de tudo - e de todos. "Descansa e pensa nisso amanhã" um amigo me aconselhou.

Naquela noite eu não fiz questão de ficar acordada até 00:05h, hora que eu nasci. Mas acabei só pegando no sono às duas da manhã.

Enquanto eu tava deitada esperando pelo João Poeira, eu pensei em tudo que tava flutuando dentro da minha cabeça. Eu pensei sobre meus amigos espalhados pelo mundo e eu pensei em amor.

Eu tenho a sorte de ter pessoas que me amam muito em todos os continentes. Tem gente que me leva no pensamento e no coração na Irlanda, na Inglaterra, na Alemanha, na França, na Bélgica, nos Estados Unidos, na Austrália, no Brasil. Amigos viajando pela Ásia e me mandando energia positiva. Quanta sorte eu tenho!

Essas pessoas todas me amam exatamente pelos mesmos motivos e eu nunca pensei nisso até agora. Eu me tornei universal sendo quem eu sou e dividindo minha estranheza com todo mundo. Isso me comoveu.

Pensei o dia inteiro na música Perhaps Love, do John Denver com Plácido Domingo. Me lembra muito meu pai e as manhãs de domingo na nossa casa. Eu não conhecia a letra, só lembrava de "perhaps love" ("talvez o amor") e quando procurei pela letra, me surpreendi. Eu transbordei amor.

De manhã a família preparou pra mim um bolinho tradicional alemão e francês com velas e brilhinhos estilo rei do camarote, além de um parabéns cantado em bom Português é um cartão que as criancas fizeram pra mim!

Antes do almoço, a mãe da família junto com o pai e o bebê foram numa livraria e eu e as crianças acabamos achando uma loja de doces. Adri, nem preciso dizer que a gente se passou, né?

Para o almoço, a família fez reserva num restaurante MUITO fofo, repleto de ursinhos de pelúcia por todos os cantos! E a comida era muito gostosa também! Agora vamos botar o pé na estrada e voltar pra Alemanha (estamos na França já faz 6 dias).

O maior presente que eu podia ter recebido hoje é me sentir amada a 7000km de distância de casa, dos meus amigos e familiares, dos meus gatos. Eu me sinto abraçada e segurada por braços longos que se estendem pelo globo e que pertencem a literalmente um mundo de gente.​

Como se agradece um presente assim? Retribuindo. Espero que vocês sintam o que eu sinto agora. Meu corpo não é tão grande, mas meu coração tem espaço pra todo mundo. Joga um colchão no chão.

Parabéns pra mim, eu te amo também.

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Na noite anterior da nossa partida de Lyon pra Paris, o Chris me mandou uma mensagem perguntando até quando eu ia ficar na França, porque na Bélgica seria feriado e ele poderia vir passear com a gente! Fiquei bem feliz!

Nosso ônibus saiu super pontual e eu e a Domi dormimos a maior parte do caminho, já que tínhamos ido pra cama tarde. Na entrada de Paris existia uma fila gigantesca e acabamos chegando na estação uma hora mais tarde que o previsto.

Caminhamos até a estação de metrô, mas tava em obras, então tivemos que andar um pouco mais. Se tem algo negativo que eu possa falar sobe Paris é: areia branca. Os parques tem uma poeira branca que fica por tudo, parecia que eu tava numa obra rolando no cal o dia inteiro.

A mãe da Domi trabalha na rede de hotéis Citadins há bastante tempo e conseguiu pra gente ficar em uma filial bem pertinho da catedral de Notre Dame por dois dias por 20 Euros a diária! Preço de banana, fiquei feliz de poder agradecer ela pessoalmente quando nos encontramos em Lyon. <3

Combinamos de encontrar com o Chris lá, que mesmo vindo de outro país, chegou em Paris mais rápido que a gente. Na frente da Notre Dame tava uma muvuca de gente e policia. Todo mundo ainda abalado com todo o atendado à cidade no ano passado, mais o atendado desse ano.

A catedral em si não achei lá essas coisas, principalmente depois de ter visto a catedral de Fourviere. Achei pequena pro que eu imaginava e não muito impressionante. Mas amei as gárgulas!

Entramos no modo maníaco andando por Paris, também. Passamos pela Champs Elysée e pelo Arco do Triunfo (minha atração favorita! Muito mais do que eu espeava!), comemos um sandubinha e partimos rumo à Torre!

De longe já dá de enxergar, até porque tem uma quantidade louca de turistas Chineses por lá e ambulantes vendendo torrezinhas de chaveiro. D: Mas é bem difícil tirar uma foto decente da Torre Eiffel, então tiro meu chapéu pra todo mundo que conseguiu!

Sentamos perto da torre pra ver o pôr do sol - e também ver as luzes se acenderem! E tava um dia perfeito: quente, mas fresquinho. E nós três ficamos lá cantando Paris S'éveille. Quando a torre se iluminou, o mundo podia parar - mas não até as 22h, quando todos os brilhos apareceram e a torre piscou por 5 minutos!

No dia seguinte, pela manhã, nos encontramos de novo e fomos até o museu do Louvre - do novo, um milhão de turistas por lá, inclusive tirando fotos tentando tocar a ponta da pirâmide de vidro, muito engraçado!

Só passamos pra olhar, porque não teríamos tempo pra entrar e ver tudo. Planejamos ir até Versailles, já que o Chris tava de carro. Acho que levou uns 40 minutos até lá, mas só de chegar perto já dá de ver a magnitude do lugar e ver que realmente não estavam de brincadeira quando construíram tudo aquilo.

Depois de andarmos pra caramba na areia branca tentando descobrir onde era a entrada do palácio, descobrimos que naquele dia da semana tava fechado. :D Bem show. "Só" tivemos acesso aos jardins, que mesmo com os chafarizes desligados, deram um banho! (ba dum tss)

O Chris precisava voltar pra Bélgica perto das 16h, então voltamos pra Paris, onde eu e a Domi ainda queríamos explorar mais. Nos despedimos e partimos pra ver a Basílica de Sacré-Coeur, o Moulin Rouge e o famoso café da Amelie Poulain!

Nem preciso dizer que a Basílica tava enfestada de turistas também, né? A preguiça de subir as escadas era tanta depois de andar por Versailles, que a gente pegou outro daqueles bondinhos que pareciam de mineração, a Domi me disse o nome deles, mas não me lembro mais. haha

De novo, depois da Catedral de Fourviere, nada mais me impressionou. Era bonita? Era, ué, mas não ganhou meu coração. Mas a propósito, vista lá de cima era incrível!

Toda a área perto do Moulin Rouge é cheia de pintos, pepecas, lingerie e a palavra 'sex'. Museu do Sexo, sex shop, strip tease, cinema pornô e tudo que se possa imaginar. Surpreendentemente, não tinham muitos turistas em volta do cabaré mais famoso do mundo - depois do Bataclã.

O café da Amelie Poulain também fica ali pertinho, mais precisamente uns 2 minutos subindo a rua do cabaré e foi uma descoberta boba, mas bem doce.

De lá voltamos pra casa e resolvemos ir no mercado, que eu juro, ficava praticamente na rua de trás do nosso hotel. Depois de um pouco de confusão, conseguimos encontrar o local, compramos coisas pro jantar mas... e pra voltar?

Pegamos uma rua errada e caminhamos quase 40 minutos na direção contrária. Chegamos em casa uma hora e meia mais tarde. :) Pelo menos não me perdi sozinha!

O dia seguinte era o nosso último. Não tinham mais muitas coisas na nossa lista de afazeres, então decidimos ir de novo ao Louvre, pra dessa vez entrar e explorar, mas tava fechado e um pombo cagou na minha bolsa, mas foi O COCOZÃO. Falta de planejamento deu nisso! Poderíamos ter ido no Louvre no dia anterior e em Versailles nesse dia!

Enfim, decidimos então só ficar pelo parque ali perto, que era muito bonito. Me trouxe memórias de eu e a Domi em Amsterdã, só querendo ficar jogada nos bancos da praça, porque estávamos cansadas demais pra andar. D: Tomamos um sorvetinho e ficamos por lá até perto das 18h, quando a Domi tinha que pegar o trem pra Lyon.

Meu vôo era só no dia seguinte, mas como não tínhamos mais hotel, decidi dormir no aeroporto mesmo. Então peguei o mesmo metrô que a Domi, nos despedimos na estação que eu desci e lá se foi mais um pedaço de mim disparando pra longe no vagão. <3

Minha estação era bem na frente das Catacumbas de Paris, que eu queria muito ver, mas a Domi teve medo. A fila era bem grande e a atração fechava em pouco mais de uma hora. As pessoas que trabalhavam no local passaram avisando que nós - os últimos da fila - talvez não iríamos ter tempo de visitar, mas como eu não tava fazendo nada e tempo era algo que eu tinha de sobra, esperei mesmo assim.

As catacumbas ficam a 21 metros abaixo da superfície e cobrem 1/8 da Cidade Luz. Os túneis foram construídos durante a extração de um tipo de pedra que existia lá e ficaram desocupados por muito tempo, até Paris precisar de mais espaço pra enterrar seus mortos - que não eram poucos.

Todo o caminho tem ossos empilhados de uma forma bem organizada, dizendo de onde foram retirados e quando. O trajeto também tem vários dizeres sobre a morte, mas tava tudo em Francês, então entendi bulhufas. O passeio dura 45 minutos e a saída foi a coisa mais claustrofóbica do mundo. Uma escada caracol que nunca acaba e dá a sensação de que a gente tá preso num looping. Só consegui pensar na parte do jogo Silent Hill: Downpour que a gente fica subindo uma escada sem fim, o Lucas me entenderia.

​Fiquei com medo de que fosse ter um cheiro ruim por lá, mas só tem cheiro de mofo mesmo, porque o subsolo é muito úmido. Mas a essas alturas, nada que fosse muito diferente do banheiro do Forge em Dublin. D:

A saída fica a uns 15 minutos andando da entrada, pertinho do meu ponto de ônibus pro Aeroporto de Orly. Ah, a propósito, Paris também tem um mapa offline que funciona super bem!

No aeroporto foi uma espera interminável. Andei pra caramba tentando achar uma tomada (achei só umas nos banheiros e uma no aeroporto todo, que era num canto perto de um telefone e que eu tive que ficar sentada no chão pra poder carregar o telefone. Além do mais, a cada meia hora os alto-falantes anunciavam de que nossas bagagens poderiam ser revistadas a qualquer momento e que malas deixadas sem supervisão seriam jogadas fora como prevenção contra ataques terroristas. D:

Surpreendentemente, eu não era a única por lá querendo dormir! Fiquei assistindo as olimpíadas na TV, descobri que tinha um terraço bem bacana, mas com uns mendigos dormindo, funcionários do aeroporto, adolescentes bêbados e camundongos. D: Não tava esperando isso.

No fim das contas consegui dormir um pouco, peguei meu vôo de manhã - o aeroporto tava LOTADO de gente! Demorou bastante, mas finalmente cheguei em Dublin - exausta e com mais um vídeo de viagem! Mas que gostoso estar de volta à Ilha Esmeralda! A França deixou em mim, além de muitas saudades, muitas lembranças. Me senti bem quista e muito bem recebida por todo mundo. A França tirou de mim a má impressão que eu tinha da pessoas francesas e um pouco o medo de viajar sozinha por ai. Au Revoir!

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Minhas viagens são sempre uma saga. Até porque sempre viajo sem gastar muito.

Ir pra Lyon era algo que eu e a Domi vinhamos combinando desde que nos conhecemos em Dublin e eu tinha que fazer isso antes de começar a trabalhar aqui. Foi minha última viagem antes de me mudar pra Alemanha (onde viajar não é tão barato) e valeu muito a pena!

Uma semana depois de voltar da Inglaterra e receber o Luke lá em casa, arrumei tudo e parti rumo a França. Dessa vez fiquei mesmo no The Forge e foi muito bom poder ver os meninos mais uma vez, até porque logo depois de voltar de Paris, já faria as malas pra me mudar pra Ingolstadt.

Como nada na vida é um bolinho, as passagens diretas pra Lyon eram super caras. Depois de quase um mês decidindo com a Domi o que fazer e como fazer, resolvi pegar um avião pra Paris, pegar um trem e depois pegar um BlaBlaCar até Lyon. Tudo parecia muito mais assustador do que realmente era. Mas era tudo em Francês, então eu já começava perdendo.

Chegando em Paris, como sempre, fiquei rodeando o aeroporto por quase 30 minutos pra encontrar a saída, mais 30 minutos pra passar na imigração, mais uma eternidade pra descobrir onde pegava o trem, comprar meu ticket e finalmente seguir meu rumo pra Cité Universitaire, descer lá e caminhar 20 minutos até o ponto de encontro, onde o senhor estaria me esperando às 12h em ponto.

Eu praticamente corri esse trajeto, apavorada que não chegaria a tempo. Cheguei lá 11:55h, andei por volta da praça, mas eu não lembrava o carro, nem o rosto das pessoas. Lembrando que eu não tinha internet, nem podia receber ligações. Eu tava à mercê da sorte mesmo.

Perguntei pra um cara aleatório se ele era o senhor que eu esperava, mas não era. Aí então eu vejo um homem falando ao telefone, olhando em volta e era o bendito que eu tava esperando! Ele e a família (a mulher e duas crianças) estavam viajando pra Lyon e foi uma viagem bem bacana. Tinha um outro cara no carro, também, viajando como eu.

Dormi a maior parte das 4h de viagem. A Domi estaria me esperando na estação de ônibus onde o BlaBlaCar me deixaria. O menino que viajou no carro comigo me ajudou a achar a padaria em que ela pediu pra eu esperar e mais um rostinho conhecido em um cenário totalmente novo!

Lyon é uma cidade bem legal, cheia de arte e vida. No dia que eu cheguei, a Domi me levou pra comer alguns doces tradicionais franceses, que a gente comeu sentada de frente pro rio que corta Lyon. Me apaixonei pelo "triângulo de amêndoas", que era tipo um folheado doce recheado com marzipã e amêndoas.

Depois fomos até um mercado (achei o nome engraçado: Mono Prix - que se lê "monoprí") e compramos uma tonelada de queijo sem perceber. D: Não sei como não morri.

Depois subimos a ladeira de onde a Domi mora, o local é muito legal! Cheio de mensagens de feminismo e força, muito incentivo á arte e música. Lá de cima tinha uma vista linda!

De noite fizemos a receita de lasanha de beringela que vimos no Tasty e ficou uma delícia! Um amigo do namorado dela também veio pra jantar e todo mundo jogou Mario Kart no projetor! Fomos dormir com a barriga e o coração cheios.

O dia seguinte foi longo! Fomos à uma feirinha de rua que vendia vários vegetais fresquinhos, mas chegamos tarde: já tava tudo fechando.

De lá passamos por uma escadaria linda, toda colorida! Depois passeamos pelo centro, falamos com a mãe da Domi e pude conhecer à parte antiga da cidade.

Além disso, a Domi me levou na catedral de Notre Dame de Fourviere num bonde que parecia que a gente ia entrar em uma mina! Super inclinado!

A catedral era de tirar o fôlego! Uma infinidade de detalhes em todos os lugares que puséssemos os olhos! Eu fiquei encantada! Definitivamente a igreja mais fantástica que eu já vi até agora! Fora a vista incrível do lado de fora.

​De noite pude comer o famoso raclette, que nada mais é que um queijo delicioso e ridiculamente derretido e mágico por cima de qualquer comida. De novo, não sei como eu não morri. O John, namorado da Domi, morreu. Comeu queijo demais e ficou ruim no dia seguinte. D:

De manhãzinha pegamos um ônibus de volta pra Paris. A viagem duraria umas 5 horas, mas pelo menos o ônibus custou 5 Euros pra mim - e 1 Euro pra Domi!

Tive uma experiência incrível na cidade e realmente a Domi me mostrou porque ama tanto Lyon! É uma cidade que agrada todos os gostos! Tem muita cultura e fiquei muito impressionada de como a cidade foi tomada por arte e poder dos jovens. Encheu meu coração!

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Enquanto eu ainda tava em Dublin, me mudaram de nível duas vezes. Primeiro pro nível Advanced - que era o que eu já tava, mas minha turma acabou por conta de muitos alunos trocando pra manhã - e depois pro C2, que é o último nível de Inglês aqui na Europa, o que acabou sendo ótimo, porque mudei pro período matutino e no fim do curso ganhei um certificado de fluência, que eu ainda não tinha.

Acho que no fim de Maio a Domi voltou pra França e o The Forge ficou vazio pra mim. A Isabelle sempre tava fora e eu acabava ficando sozinha no quarto.

Decidi que era hora de me mudar e comecei a procurar um quarto só pra mim. Antes de ir embora a Domi ainda visitou um deles comigo e era horrendo! Era um quarto dentro de outro quarto, mais parecia a dispensa lá de casa e o landlord era um Roberto Justus da Malásia. Voltei pra casa indignada, além de exausta, porque andamos pra caramba!

Acabei me mudando pra um bairro que chama Inchicore, perto do IMMA, inclusive! Era uma casa com mais três pessoas: uma Francesa (também de Lyon!) chamada Rumi e dois brasileiros Rodrigo e Hangover (o nome dele é Thiago, mas todo mundo chamava ele pelo apelido). Ah, e um cachorrinho! Era uma galera muito gente boa, num bairro bem tranquilo e bonitinho, bem diferente da Rua Mais Feia de Dublin, cheia de crianças doidas e mães histéricas.

Pra ser sincera, senti falta da pouca privacidade do outro apartamento, mas foi uma mudança necessária. Pude me conhecer melhor, me espalhar e curtir o silêncio. Além do mais, pude receber dois amigos na nossa casa, porque era bem maior e menos apertada que o Forge. O Chris, meu amigo que eu visitei na Bélgica, veio e pouco depois Luke, meu amigo da Inglaterra.

Nesse meio tempo não explorei muito mais a cidade, fui no Dublin Zoo, que fica dentro do Phoenix Park e amei. Os animais são muito bem cuidados e o local é enorme e lindo! O zoológico tem até um programa na TV que a cada episódio mostra o dia-a-dia dos cuidadores de cada animal! :)

Não lembro se contei aqui, mas durante meu tempo em Dublin dei aulas particulares de Inglês até a última semana que eu fiquei por lá. Foi uma experiência incrível! Me fez ter contato com pessoas inusitadas, de culturas que eu nunca tinha tido a oportunidade de me aproximar antes. Fiz amizade com seres incríveis, que se sentiram a vontade o bastante pra dividir um pouco da vida, da casa, do café. Encheu e ainda enche meu coração de orgulho quando vi cada um deles avançando nos estudos e atingindo suas metas - um deles conseguiu um mestrado graças ao Inglês!

Em Dublin conheci pessoas que dividiram comigo uma pizza, uma risada, o sofá, a cama. Me pagaram uma pint, uma rodada de táxi, me emprestaram dinheiro pro aluguel, pro primeiro chip do celular. Onde quer que vocês estejam: eu não esqueci e eu sou grata até o dia que eu morrer pela mão que cada um ofereceu. <3

Dublin me abraçou com braços de mãe e cuidou de mim até eu embarcar no avião. Foi um capítulo muito importante e especial na minha vida. Uma experiência louca e agitada que me mudou como pessoa e como Juli. Quando penso nesse período de sete meses, só tenho duas certezas: não sou mais a mesma e não poderia ter escolhido melhor lugar pra começar.

"​Eu beijo sua mão velha e enrrugada antes de você me deixar partir. Eu me curvo e viro pra deixar pra trás seus olhos verdes, marejados e seu maldito coração de pedra que se espalha pelas suas ruas e que provou meu sangue mais de uma vez. Eu vou observar seu cabelo sedoso e cinza pairando sobre minha cabeça mais uma última vez, sentindo os braços que mantiveram todo o mal longe de mim. Obrigada, Dublin, por cuidar tão bem de mim. Agora é hora de ser engolida por uma pássaro prateado mais uma vez e ser cuspida em algum outro lugar, com grandes esperanças de ser docemente envolvida como eu fui por você. Te vejo logo, ranzinza!"

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Pra quem acompanhou o blog durante os quatro meses que eu postei: continuo na Europa e ainda não morri.

Muita coisa aconteceu desde Abril, além de eu ter relaxado com o blog por diversos motivos que eu vou contar ao longo de mais posts aqui. Já escrevi tudinho e programei pra serem postados todos os dias, assim fica menos cansativo que ler tudo de uma vez só!

No mais, me mudei pra Ingolstadt, na Alemanha, finzinho de Agosto e agora trabalho de Au Pair pra uma família muito legal com duas crianças e um bebê. Fui muito bem recebida e a cidade é um charme! Também comecei a estudar Alemão e ontem quando precisei comprar pretzels, pedi tudo na língua do país e me entenderam! Parece bobo, mas pra mim é um grande avanço, dado o fato que eu quase morro do coração quando alguém fala comigo aqui - porque eu não entendo nada! D:

Hoje saí por aí pra tirar umas fotos aqui pro blog, me perdi um pouco atravessando o cemitério pra chegar no mercado, mas consegui! Ah, aviso aos navegantes, vulgo Rafa, Adri e Perazza: o preço do Jägermeister aqui é muito barato! A Alemanha vai ser meu fim!

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Como quase tudo na minha viagem pra Inglaterra, essas últimas horas em solo inglês não seriam diferente.

Peguei meu ônibus de Londres pra Liverpool às 9h. Às 14:10h eu tinha que trocar de ônibus em Manchester, pra enfim chegar em Liverpool perto das 15h. O ônibus das 9h estava programado pra chegar na estação por volta das 13:30, então eu ia ter tempo de fazer tudo tranquila.

Antes de sair de Dublin, eu comprei um ticket pro Magical Mystery Tour, um ônibus lindo de arco-íris que leva a gente em um tour de duas horas por vários locais relacionados aos Beatles. Comprei o último horário, às 16h. Como programei de chegar em Liverpool às 15h, eu teria bastante tempo pra conseguir achar o local certinho.

Dentro do meu ônibus pra Manchester, olhei no relógio e percebi que íamos nos atrasar. Pegamos uma fila imensa na estrada e eu ficava cada vez mais aflita, lendo todas as placas pra saber se já estávamos perto. Depois de várias tentativas frustradas de me comunicar com a empresa de ônibus pra informar o problema e saber como eu poderia proceder com minha passagem já comprada pro outro ônibus, finalmente chegamos!

Uma hora de atraso! Eu voei pela porta do ônibus, desesperada, procurando pelo ônibus pra Liverpool, jurando que ele já tinha saído - eram 14:25. Nisso um homem me informa que esse ônibus também atrasou e que já estava a caminho. Quase fiz xixi na calça. D:

Chegando em Liverpool, o mapa offline que eu baixei era uma porcaria, mas consegui me encontrar na cidade e achar o ponto de encontro pro tour na Albert Docks... Já que o ônibus berrante passou por mim e eu só segui até ele parar.

A cidade industrial era surpreendentemente colorida e feliz. Foi muito diferente do que eu esperava. Além do mais, o bom tempo e o interminável céu azul ajudaria a levantar o astral de qualquer lugar.

Eu fiquei tão atacada quando eu vi o ônibus, que eu não conseguia sossegar a bunda no banco enquanto eu esperava. Quando os motoristas se aproximaram eu e os outros passageiros já estávamos rodeando o ônibus igual pombo na pipoca.

Entramos, sentamos e eu pude sentir todos os beatlemaníacos da minha vida enchendo o banco do meu lado. O guia se apresentou e quando o ônibus saiu, claro que saiu tocando Magical Mystery Tour, música que o Paul McCartney abriu o show em Floripa. De repente eu transbordava sentimentos, pensei no meu primo Lucas, pensei na Jô. Meus olhos estavam marejados e meu sorriso escancarado enquanto eu olhava pela janela.

Entre os vários lugares que passamos, vimos a Penny Lane, que mais parecia o centrinho de Santo Amaro, na versão da vida real de "there, beneath the blue suburban skies" ("lá, sobre os céus azuis suburbanos"), o local onde John e Paul se conheceram, onde eles tocaram pela primeira vez, a casa dos quatro membros da banda, além de claro, Strawberry Fields e Cavern Pub/Club.

Descobri ainda que Liverpool é a unica cidade do mundo com duas catedrais na mesma rua.

Às 18:30h peguei um ônibus pro aeroporto e fiquei lá mofando até a hora de ir embora. Eu estava exausta e completa. Minha alma tava com a barriga cheia e eu me apaixonei por mais uma cidade nesse mundão sem rédea.

Voltando pra Dublin pensei em todos os pedacinhos que se vão de mim, perguntei se um dia eu vou sumir por aí, mas percebi que me espalhar fez meu coração dobrar de tamanho.

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