Escrevo meu futuro melhor com os pés
que com as mão
Qualquer coisa que as mãos tentam predizer,
os pés teimam em desviar
E em meus deslizes
vago incerta
a redescobrir certezas
Saudosa com tudo que
ainda não há.

Livro: A Náusea, Sartre.

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para Beatriz

A sua dor é tão corpórea, quase posso tocá-la,
e se acaso o pudesse, escorria límpida
lágrima entre meus dedos

É também tão compreensível
das que fazem do peito alheio
um espelho

Sua dor é irmã da minha
e da de outros mais

É fraterna a todos os que têm
o coração feito de mar

Os que carregam afeto profundo
e um azul cor de infinito
no vermelho de suas paixões.

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Minha mãe sempre disse que não sei cativar as pessoas. Desde criança, ouço "...mas você tem que aprender a cativar os outros!" Nunca aprendi. A etimologia da palavra cativar se opõe ao meu senso de liberdade. Cativar, passa bem próximo de cativeiro - ainda que eu esteja usando um sentido mais literal, e até pejorativo. Não sinto vontade de tomar ninguém pra mim. Entretanto, as coisas nem sempre foram claras. Me sinto sufocada em muitos tipos de relações consideradas comuns, e ainda não entendo totalmente isso. As peças vão encaixando aos poucos pra tentar desvendar o que já estava aqui, sem paciência para esperar que eu compreendesse antes pra se fazer presente.

Meus amigos: tão distantes, tão próximos. Não os cativei. Não mantenho contato diariamente, alguns sequer uma vez por mês. E tenho amizades de 10, 15 e umas de quase 20 anos. Sempre que os vejo somos os mesmos. Não pense que não há intimidades, conversas intermináveis, desabafos, piadas ou até mesmo apenas a presença reconfortante junto ao silêncio quando se faz necessário. Temos laços bonitos e que tem durado uma vida. Mas não me sinto na obrigação de fazer nada, nem cobro nada de ninguém. Tudo flui e querer se encontrar é natural. Diferente de tantas cobranças entre amigos (e outros tipos de relacionamentos) que vejo e já que passei antes, em relações que não sobreviveram. Não gosto que cobrem presença, ligações, e menos ainda afeto. Há dias que quero ficar sozinha, e gosto que respeitem meu espaço. É assim que funciona para mim, e sabe, tudo bem. As pessoas são diferentes, e há quem se identifique. Felizmente sempre tive quem me aceitasse, às vezes até mais do que eu mesma. Há muito tempo pensei que isso fosse um problema, mas não é.

O que não aguento é ver tanto pronome possessivo ser praticado nas relações interpessoais: meu amigo, tua amiga, teu namorado, minha namorada... É cansativo ver um querendo ter o outro, porque só enxergo o fracasso iminente. Em meu ponto de vista, em meu íntimo, sou impossibilitada de ser assim. E quando o faço (ou tento), adoeço. Ninguém aguentaria levar meu ego sobre os ombros, assim como eu não aguento o ego dos outros sobre os meus.

Desconfio que o desfrutar de experiências interpessoais gratificantes é bem mais válido que qualquer tentativa tola de possuir alguém. Parece que a finalidade da posse é ter a certeza de que você sempre terá aquelas boas experiências com aquelas mesmas pessoas, as suas pessoas. O que não faz sentido, pois se os dois quiserem as coisas vão acontecer. Caso contrário, ou a pessoa pula fora e você acaba ficando com a sensação de que perdeu, ou você vai ter relações frustradas. Ninguém precisa se amarrar a ninguém, seja amizade, namoro, ou a qualquer tipo de parentesco... Além do mais, tudo é tão transitório, nenhuma experiência é igual a outra por mais que tentemos recriá-la. No fim das contas essa coisa de posse é uma ilusão bonita criada para gente acreditar que tem controle sob coisas que não têm. Mas vai saber, sou suspeita ao dizer.

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Você acorda sem saber se é dia ou noite. Que dia é hoje? Em que mês estamos? Abre os olhos e descobre que é fim de uma tarde. Tarde de que dia? Qualquer um, escolhe. É só mais uma tarde no ciclo da repetição. Você tenta resistir a ideia mais razoável de que é necessário levantar e procurar alguma coisa pra fazer, talvez descobrir que dia é hoje. Mas acaba repetindo o ritual mais praticado diariamente nesses últimos anos e decide levantar. Vai ao banheiro lavar o rosto, evita o espelho, não lembra se já comeu alguma coisa naquele dia. Que dia mesmo?

Tem trabalho pra escrever? Matéria pra estudar? Você fica um tempo pra se tocar que tá de férias. Férias! Você já pensou nas possibilidades, mas todos estão trabalhando. Infelizmente, para alguns, com aquilo que não gostam. Você lembra de todas as ótimas notas, do CR alto que você mantém na faculdade. Parecem um borrão, conquistas sem sentido. As aulas são poucas. Você deseja mais conteúdo, pra ler. Pra ter dúvidas das coisas e não de você mesma.

Você resolve abrir os e-mails e pensa se seria bom voltar a lecionar inglês. Seria? Ou voltariam os problemas com a ansiedade? Você percebe que precisa decidir entre a ansiedade e a depressão. Os dois conseguem coexistir em você, mas ao tentar eliminá-los, um sempre sobrevive. Será que é crônico igual bronquite asmática? Esquece. Melhor não pensar muito. Você quer ser útil, vencer seu entorpecente niilismo interior. Alguma coisa não deixa. Ou você cria alguma coisa imaginária e diz que ela não te deixa nem tentar. Mas é automático. Um processo que você não consegue interromper. Ou você cria alguma coisa imaginária e diz que ela não te deixa nem tentar. Mais um ciclo vicioso. Mais uma das incontáveis repetições.

Você se cansa, seu corpo deita no escuro do seu quarto. Você responde alguns retóricos "tudo bem?" por mensagens e se esconde. Seu corpo some no escuro. Você se desfaz. Tenta voltar a dormir. Mas agora que sua silhueta de dissipou os pensamentos não tem limites pra preencher e cabem em todo seu quarto. Você só consegue dormir depois de ser violada por cada ideia, cada pensamento. Você morre no sono, de exaustão. E levanta perdida no dia seguinte, sem saber que dia é.

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Se acaso disséssemos aos nossos ancestrais que no futuro viveríamos entre deuses eles ririam de nós. Quanta tolice! Ah, se eles pudessem nos ver agora. Não só andamos entre deuses, nos tornamos deuses. Pertencemos ao século das pessoas que acham que nunca vão morrer. E como seres imortais, nada urge, tudo espera. Estamos sem tempo para "pequenas bobagens", pois temos todo o tempo do mundo. Afinal, o que é a imortalidade senão isso? Poder esperar.

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