Esse não é um texto com base em nenhuma pesquisa, ou algum tipo de comprovação científica, obviamente porque esse espaço não se trata disso. O que escrevo é algo totalmente empírico, algo que tento transfigurar em palavras, mas quando o faço não expressa com exatidão o que senti. Trato uma depressão diagnosticada há alguns anos, mas que vem me acompanhando desde a infância, fase em que eu muito mal interagia com as pessoas ao meu redor, mas que não cabe aqui, pois quero manter o foco. É mais uma observação para me justificar quando digo que há tanto tempo essa doença silenciosa me acompanha que se tornou simbiótica a minha personalidade, e isso me faz pensar se realmente me conheço sem ter depressão.

Parece que ela vem disfarçada de tédio, faz do peito um buraco que nada é capaz de preencher. Logo o significado de cada aspecto da vida vai se derretendo até escorrer pelo ralo. O vazio no peito cresce e se expande para cada pedaço seu: braços, mãos, pernas, pés... Até fazer você ter a convicção de que é incapaz de realizar as tarefas mais simples que sempre executou. E então haja força de vontade pra levantar da cama e tomar um simples banho antes do meio dia. O vazio assume o controle e ele é tão grande que é como se você se transformasse em ninguém.

Você vira alvo de pensamentos autodestrutivos, e sem perceber acumula gatilhos. Tem muito choro e tristeza no início por conta de eventos traumáticos que a mente insiste em remoer. Mas se difere nitidamente de uma tristeza que vai embora. Acontece que a depressão não pega no "estar triste", mas na imensidão do sofrimento que faz seu organismo te anestesiar como uma forma de auto defesa. Anestesiada você se recusa a dar importância suficiente para algo a ponto de se preocupar, porque isso poderia te fazer sofrer novamente. Nada parece fazer diferença. A vida e a rotina se tornam extremamente mecanizadas e desprazerosas. O tempo congela e faz você se sentir como se você vivesse todo dia o mesmo dia. Dá impressão que tudo se repete, que você vive sempre a mesma história. Você fica preso no tempo, congelado.

Sem mencionar a solidão esmagadora que faz de você quase inexistente. Como se você não tivesse uma alma viva com quem contar, ao mesmo passo de sentir-se inútil a qualquer pessoa. Você pode estar rodeada de pessoas preocupadas, mas se sente desconectado de tudo e de todos. Se isola, porque acha que não há um lugar propício pra sua existência, muito menos um motivo para existir. E essa é a parte mais perigosa: achar que não se tem mais nada a perder. Até mesmo sua identidade é roubada, o buraco no peito suga e destrói tudo o que antes poderia te definir um pouco.

Pintar, ler, jogar, escrever, dançar, bater um papo, nada disso te estimula mais. (Coisas que antes despertavam um prazer imenso.) Não é que não passe pela cabeça fazer alguma dessas atividades, pelo contrário o tempo todo a gente quer fazer aquilas coisas, ao mesmo tempo não consegue levantar da cama, ou se sentir capaz de fazê-las. É sabido que é tudo coisa da nossa cabeça, só que nossa mente foge do nosso controle. E muitas vezes vem a culpa por saber disso, mas não poder mudar, não conseguir mudar. Essa culpa inicia um círculo vicioso.

Mas por que escrever sobre tudo isso, afinal? Ao ter conversado sobre esse tema ontem mesmo, uma pessoa chegou o mais próximo possível de descrever as coisas que senti/sinto ao enfrentar a depressão. Uma pessoa que já passou por isso e já está bem. E por mais diferente que sejam nossas histórias com essa doença silenciosa, sentíamos igual. Não existe problema pior que o outro, mas sim o peso que esse problema tem pra cada um. Além dessa lição é um pouco reconfortante sentir que ter depressão não é algo de outro mundo. Mudam-se os problemas, mas o modo de sentir muitas vezes é o mesmo. Você não é o único a ter seus momentos de escuridão. E desvendar o que há de oculto nela, ajuda a desmistificar e talvez até mesmo a superar o medo do que antes era desconhecido.


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Não há sensação melhor do que a de estar em meio a natureza. Respirar o ar mais puro. Saber que você pode lidar com as irregularidades no caminho. Achar que não vai conseguir e acabar se superando. Provar que você é parte desse mundo. Tudo isso com uma vista mais bela do que qualquer arranha céu construído pelos homens. Uma lembrança de que já fomos feitos de liberdade.

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Fotografias autorais da trilha na Pedra de Guaratiba, no Rio de Janeiro. Nenhum cansaço me fez tão bem antes.

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